Olhe bem, aproveite, porque eles são invisíveis

por Sofia Amaral
Um psicólogo da USP foi viver a vida dos garis para escrever sua dissertação de mestrado, cujo tema era a invisibilidade pública, isto é, as pessoas que trabalham em atividades consideradas subalternas não são “vistas” pela sociedade.

Ele, Fernando Braga da Costa, sentiu na pele o problema ao trabalhar como gari, varrendo ruas.

Uma experiência que mudaria seu modo de olhar o mundo e sua própria vida.


Fernando Braga da Costa nasceu em Votuporanga, interior de São Paulo, em 1975, mas se pode dizer que foi criado na capital – o pai, formado em medicina, e a mãe, formada em filosofia, mudaram-se para a metrópole quando Fernando tinha pouco menos de 4 anos. O futuro psicólogo teve, segundo suas próprias palavras, “uma infância confortável”: morava com a família em um apartamento no Alto de Pinheiros, um dos bairros mais caros de São Paulo; fez ginásio em uma pequena escola particular da Lapa – bairro de classe média – e o colegial no Palmares, um sofisticado colégio de Pinheiros, bairro vizinho ao seu. Concluído o ensino médio, passou no disputadíssimo vestibular para psicologia na USP, a maior da América Latina e possivelmente a mais concorrida, o que faz com que, apesar de ser uma universidade pública, a elite econômica do Estado predomine entre seus alunos, especialmente nos cursos mais concorridos, como o de psicologia. Terminada a graduação, Fernando fez mestrado na mesma área e agora cursa o doutorado.

Moisés Francisco da Silva nasceu em Alagoas, na cidade de São José da Laje, divisa com Pernambuco – ele até se diz pernambucano –, há sessenta “e poucos” anos, segundo suas palavras. Veio para São Paulo aos 20 anos. O primeiro emprego foi em uma fazenda próxima a Itanhaém, no litoral paulista. Passou ali nove meses. Voltou à capital e foi trabalhar na construção civil, onde se manteve até conseguir o emprego de jardineiro na USP, há mais de vinte anos. De jardineiro foi promovido a “encarregado” do pessoal de limpeza e jardins. Hoje licenciado por conta de uma hérnia de disco e uma artrose no braço – “heranças” do trabalho na Cidade Universitária –, seu Moisés toca uma pequena quitanda instalada na frente de sua casa em Cotia, a cerca de 30 quilômetros de São Paulo. Com ele também moram a mulher, dona Miralva, e três de seus nove filhos, que lhe renderam uma vasta descendência: dezessete netos. Dos outros seis filhos, três estão “no Norte”, dois moram na mesma região que o pai, e o último deles passou recentemente por uma desgraça: levou um tiro no rosto e ficou cego. Agora está na Febem de Franco da Rocha, em regime semi-aberto: “Ele andava com uns maus elementos, que era tudo menino que cresceu com ele aqui na rua. Eles faziam assalto e ele não queria assaltar, e acabou levando o tiro por causa de uma dívida, porque usava maconha. A gente chegou a pagar dívida dele duas vezes, mas essa vez a gente só soube depois. Aí, um dia, um dos colegas deu um cheque roubado, ele não tinha malícia, foi no supermercado e comprou umas coisas com o cheque. Não deu outra: foram atrás dele. Agora, ele está lá há mais de um ano, já gastamos um dinheirão em advogado e não tem jeito de tirar ele de lá”.

Moisés e Fernando tornaram-se grandes amigos; uma amizade que nasceu dentro da Cidade Universitária a partir de uma idéia do professor José Moura Gonçalves Filho: todos os alunos da disciplina psicologia social II assumiriam, por um dia, uma profissão reservada às classes pobres. Fernando escolheu ser gari na própria universidade. E gostou tanto da experiência, que há nove anos vem varrendo ruas ao menos uma vez por semana. Descobrira um novo mundo, que mudou sua vida.

Gente invisível
Para começar, extraiu da experiência a sua dissertação de mestrado: a invisibilidade pública, isto é, a tese de que os trabalhadores subalternos não são “vistos” pela sociedade. “É como se a pessoa passasse por um poste, por uma árvore”, diz Fernando. Segundo sua dissertação, a invisibilidade pública é uma “cegueira psicossocial” sustentada pelos antagonismos de classe: enxerga-se apenas a função, e não a pessoa. E isso acontece tanto mais quanto menor for o sentimento de identificação, de comunidade que o “cego” tenha com o “invisível”. Como conta seu Moisés: “Você tá varrendo e o camarada passa em cima da pessoa sem nem olhar, capaz até de machucar”. Fernando é mais contundente: “Desde a hora em que você chega para trabalhar até a hora em que você vai embora, é humilhação o tempo todo. Você é carregado em uma caçamba de caminhonete junto com as ferramentas, como se fosse uma delas (hoje, na USP, após três jardineiros terem caído da caçamba, os garis utilizam os ônibus circulares do campus para chegar aos locais de trabalho). Aí, você começa a trabalhar, os carros quase passam por cima de você, tem gente que estaciona em cima do lixo que você está varrendo, tem gente que pisoteia o lixo e até quem peça para você parar de varrer porque está incomodando. Eu, que estava habituado com o ambiente da USP – onde você, passando por uma pessoa, mesmo que ela não seja sua conhecida, os olhares se cruzam, e às vezes há até um cumprimento leve com a cabeça –, fiquei muito surpreso: com os garis isso não tem chance de acontecer. Quando você passa por um estudante e não o cumprimenta, existe uma opção clara nisso. Quando você passa por um gari e não o cumprimenta, você não se deu ao trabalho de pensar se ia cumprimentar ou não. Você nem chegou a olhar no rosto aquela pessoa, é como se ela não estivesse ali.”. Professores que davam aula para Fernando e o cumprimentavam mesmo fora da universidade chegaram a esbarrar nele quando estava com o uniforme de gari, e não o “viram”, passaram direto.

De outro lado, os colegas de trabalho de Fernando perceberam desde o primeiro momento que ele não era um gari. “O corpo da gente expressa isso.”, ele diz. “A maneira como a gente olha, gesticula, até a maneira de usar a mesma roupa é diferente. Eles bateram o olho e já viram que não era alguém da mesma classe social deles.” Fernando conta que no início eles queriam protegê-lo, poupavam-no do trabalho mais pesado, reservavam-lhe as melhores ferramentas. E imaginavam o que ele estaria fazendo ali: “Um dos garis achava que eu tinha feito uma safadeza com algum professor e aquela era a minha punição, outros acharam que eu estava fazendo um estudo de botânica, e teve até quem achasse que eu era um espião da prefeitura da cidade universitária, que estava ali pra ver se eles estavam trabalhando direito.”

Primeiras impressões à parte, muitos deles, como seu Moisés, se tornaram amigos de Fernando. E mais do que isso: o elegeram como porta-voz. “Vai entender. Desde o primeiro dia de trabalho eles vinham fazer reclamações pra mim. O Moisés sempre falava que eu devia ir ao jornal do Sintusp, o sindicato da USP, falar como a gente trabalhava, porque se ele fosse estava ferrado, perdia o emprego.”

Restos de tudo
As condições de trabalho dos garis são de fato revoltantes, ainda mais se tratando de uma universidade importante como a USP. A dissertação de Fernando traz descrições de dezenas de situações que deviam fazer qualquer fiscal de saúde e segurança no trabalho chorar. A pior delas é a limpeza das lixeiras do campus: a lixeira é uma espécie de “armário” de alvenaria, com portas de ferro e cerca de 1 metro e meio de altura por 5 de comprimento e 2 de profundidade. Localizam-se invariavelmente nos lugares menos visíveis de cada prédio. O gari deve retirar todos os sacos de lixo de dentro dela, lavá-la e depois colocar todos os sacos de volta. O problema é que nem todos os sacos estão fechados e são usadas também caixas de papelão, o que resulta em muito lixo espalhado dentro da lixeira: comida, lixo de banheiro, latas, papéis e objetos quebrados, como mesas, cadeiras e até armários; como escreve Fernando, “restos de tudo que se possa imaginar”. E, claro, insetos de todos os tipos, principalmente baratas, e até ratos. Todo o trabalho é feito sem a proteção de luvas ou botas – segundo Fernando, elas aparecem apenas quando há algum risco de fiscalização externa –, e máscaras, nem pensar. O contato direto com a imundície é inevitável, e o fedor faz arder o nariz e os olhos. Fernando conta em sua dissertação que foi designado para esse serviço junto com um colega: “Surpreendi-me com suas reações (de nojo e revolta), imaginava que ele já estivesse acostumado àquelas circunstâncias, imaginava que fosse possível alguém se acostumar àquelas circunstâncias. Idiotia. Eu próprio nunca me acostumaria, por que com os trabalhadores seria diferente? Por que supomos haver alguém que suportasse tudo aquilo?” Em outra ocasião, Fernando e os colegas tiveram de viajar na caçamba da caminhonete em meio a uma montanha de esterco; em outra ainda, foram retirar sacos de lixo das lixeiras do campus e encontraram todos rasgados. Resultado: Fernando e seu colega tiveram de retirar o lixo sem luvas. “Por sorte havia poucas baratas”, conta.

Não é difícil compreender por que uma pessoa nessas condições se sente humilhada. Humilhação agravada pelo fato de os outros, aqueles que nunca em sua vida passaram ou passarão por situação semelhante, olharem com desdém ou simplesmente não olharem, não enxergarem os garis.

Fernando e Moisés, o gari de verdade que virou amigo do peito.
Como diz seu Moisés: “Olha, filha, quanto mais tem estudo, mais tem ignorância. O estudante, o doutor, que tem seu estudo, sua boa profissão, vê um camarada varrendo, ajuntando lixo e não trata a pessoa como um ser humano. Porque, pra ele, aquilo ali é um cachorro, não tem valor pra ele, eles passam dando banho de lama. Ele não sabe que todo mundo é humano. E a gente não pode fazer nada, tem que agüentar e ficar quietinho. E todo mundo tem o seu valor. Se você tem uma fazenda, você vai pegar um doutor pra cavar um poço, plantar um feijão, arar uma terra? Não, porque ele não estudou pra isso. Ele estudou pra mandar. Se fosse tudo doutor, como é que a gente ia comer?” Fernando completa: “Quando os caras são muito agressivos, eles (os garis) falam: ‘Esse aí estudou demais’. Conhecimento todo mundo tem. Tem trabalhadores ali que são analfabetos e são muito mais sábios do que professores que me deram aula na pós-graduação. É uma sabedoria criativa, não mecânica.”. E dessa sabedoria Fernando absorveu muito.

A “hora do almoço”
Perguntado sobre o que aprendeu nesses anos de varrição, Fernando é categórico: “Tudo!” E dá um exemplo: “Outro dia saí pra jantar, coisa que odeio fazer porque não consigo mais me sentir à vontade com alguém me servindo, e na volta parei no McDonald´s pra comprar um sorvete no drive thru. Na hora em que eu estava saindo, um menino me parou e pediu um trocado. E eu com o sorvete na mão, sem condições de dirigir, de pegar o dinheiro, falei que não tinha. E aí estava indo pra casa, mas resolvi dar meia-volta porque não ia conseguir dormir. Porque menti pro menino. Aí voltei, por sorte ele ainda estava lá, eu o chamei e dei uma nota de 10 reais. Ele agradeceu e eu falei: ‘Eu menti pra você, você me desculpa?’ Aí, sim, ele abriu um sorriso, e ele abriu não porque eu dei o dinheiro, abriu porque percebeu que eu menti. Tanto percebeu que só sorriu quando eu pedi desculpas. E a gente vive essas situações diariamente. O contato com os garis ensina o tempo todo”.

A vida de Fernando mudou bastante após a experiência. Além do fato de ser bastante procurado pela imprensa nos últimos tempos – “quando eu ia imaginar que varrer rua ia me fazer dar entrevista!” –, seus hábitos mudaram: “Hoje em dia, eu não digo mais pra ninguém: ‘E aí, vamos nos ver na hora do almoço?’ Pra ninguém. Não posso dizer uma coisa dessas. O que é ‘hora do almoço’? Pra gente, pra burguês, ‘hora do almoço’ é meio-dia, 1 hora; os garis almoçam às 10 da manhã. Como é que eu posso dizer ‘hora do almoço’ sem pensar na condição social disso? Altera tudo”. Tanto altera, que Fernando acaba de se mudar para o Rio Pequeno, um bairro “proletário”, por assim dizer, próximo à USP. E lamenta muitas coisas que vê e ouve por aí. Como aquela do repórter de uma rádio de São Paulo que, ao entrevistá-lo, citou um monge budista que afirma que o trabalho braçal liberta: “Tudo bem, então manda o monge vir varrer rua às 7 da manhã num dia de chuva no inverno de São Paulo. As pessoas dizem coisas para manter o status quo da classe dominante, sem se dar conta”. Ao mesmo repórter, Fernando disse uma frase “que acho que até vai dar processo”. Fernando assistia a um programa na MTV, de uma apresentadora muito famosa, e a moça reclamava com a produção que tinham dado a ela um sapato de número maior do que o que ela calçava, e falava: “Eu não sou pobre! Quem não tem número certo no pé é pobre! Pode me dar o número certo!” Fernando então, ao ser perguntado pelo repórter sobre o que mudou na sua vida, narrou o episódio e disse: “Mudou tudo, porque essa moça, eu poderia até achar ela bonita, mas, depois de ouvir isso, se ela aparecer pelada no meu quarto eu broxo”.

Sofia Amaral é estudante de Ciências Sociais.

Anúncios

4 comentários em “Olhe bem, aproveite, porque eles são invisíveis

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s